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Antropologia crítica – sobre Adorno’s “Remarks on The Authoritarian Personality”

Virginia H. Ferreira da Costa

[Available in an English Translation]

The Platypus Review contribuiu recentemente de modo ímpar com os estudos sobre Teoria Crítica no mundo todo. De forma inédita, na edição de número 91 de novembro de 2016 a revista publicou um texto de Theodor W. Adorno intitulado “Remarks on The Authoritarian Personality by Adorno, Frenkel-Brunswik, Levinson, Sanford”[1]. Trata-se de um capítulo escrito em 1948 que integraria o livro The Authoritarian Personality, publicado em 1950, mas que acabou não incluído na obra. O texto ganhou recentemente uma tradução para o português publicada na revista de Filosofia Trans/Form/Ação[2]. Este seria o último capítulo da obra, mas acabou nos arquivos de Max Horkheimer da biblioteca da Universidade Goethe. Mesmo que o capítulo tenha permanecido inacabado, ele é de extrema importância no que tange à compreensão da obra The Authoritarian Personality e à teoria adorniana em geral.

O livro The Authoritarian Personality, escrito por Adorno, Else Frenkel-Brunswik, Daniel Levinson e Nevitt Sanford contém quase mil páginas no total e pode ser acessado em sua integralidade nos arquivos disponíveis online na página do American Jewish Committee[3], a agência financiadora do projeto. A questão fundadora desta pesquisa empírica versa em torno da possibilidade de um fenômeno análogo ao nazifascismo em um país democrático como os Estados Unidos dos anos 1940. Tal questionamento procura abordar o preconceito (ou etnocentrismo, como foi denominado pelos autores) como atuação profundamente antidemocrática. Verificou-se na pesquisa a presença de traços de potenciais fascistas em entrevistados, o que significaria uma certa suscetibilidade destes à propaganda ideológica autoritária encontrada no clima cultural geral da sociedade.

Tendo, portanto, um viés profundamente crítico e atual, o livro, bem como o capítulo publicado pela Platypus, é de extrema valia para a interpretação da teoria adorniana, e também para a análise da conjuntura mundial contemporânea. É diante da urgência em se compreender e lutar contra uma nova onda de autoritarismo vivida em muitos países do globo que o livro tem ganhado crescente interesse de leitores versados ou não em autores críticos.

Neste contexto, o que faz dos “Remarks” um texto precioso é a sua contribuição para a crítica da sociedade capitalista enquanto produtora de ideologias autoritárias. Por mais que o livro seja principalmente voltado à pesquisa de opiniões autoritárias em indivíduos entrevistados – tendo recebido as críticas errôneas de ter “psicologizado” relações sociais e de ter “quantificado” expressões subjetivas –, é nos “Remarks” que Adorno acerta as contas com possíveis críticas vindouras, defendendo a obra ao posicioná-la no interior da metodologia e conceituação da Teoria Crítica.

Em um dos poucos comentários feitos dos “Remarks”, também publicado pela Platypus Review, Cutrone[4] relaciona os desenvolvimentos do texto adorniano à crítica dialética imanente desenvolvida pelo autor. Cutrone enfatiza como o conceito de autoritarismo não é somente crítico por produzir um diagnóstico social do capitalismo monopolista, mas também por apontar para além de si, indicando condições de possibilidade de mudança. Acertadamente, ele diz: “A possibilidade de mudança é indicada pelas autocontradições de um fenômeno, que se desdobram a partir de si mesmo, de seu próprio movimento, e se desenvolvem a partir de seu momento histórico. Para Adorno, a chave é como o autoritarismo psicológico é autocontraditório e aponta para além de si mesmo.”[5] De fato, a abordagem adorniana no livro enfatiza as contradições encontradas nas narrativas dos entrevistados, considerando-as um reflexo das contradições sociais que regem as sociedades capitalistas.

Contudo, somente dizer que o elemento crítico do autoritarismo se encontra na contradição das personalidades autoritárias estudadas é, a nosso ver, não dizer ainda o suficiente. Afinal, o que realmente interessa é compreender como é pensada e construída a relação entre as determinações sociais capitalistas e a formação psíquica da personalidade autoritária. Esta relação entre social e individual é desenvolvida por Adorno principalmente por meio de um conceito pouco pesquisado em sua obra, mas que contém um alcance crítico bastante amplo. Trata-se do conceito de antropologia, que se encontra defendido nos “Remarks”.

Visto que o livro desenvolve a noção de uma nova espécie antropológica, ou o tipo antropológico autoritário, para analisar o preconceito em geral, o intuito do capítulo “Remarks” é delinear em contornos mais precisos o conceito de “antropologia” exposto na obra. Trata-se, então, de um capítulo bastante claro onde Adorno apresenta de forma muito precisa a antropologia do tipo autoritário: não sendo uma abordagem psicológica, nem sociológica, muito menos existencialista e religiosa, a antropologia descrita no livro denota parte da formação de indivíduos sob influência do capitalismo administrado. Para compreendê-lo, é necessário entender o ponto de vista adorniano sobre a relação entre psicologia e sociologia, ou melhor, entre as manifestações individuais de preconceito e as determinações sociais e culturais que incitam os sujeitos mais preconceituosos.

Desenvolvendo seus argumentos por meio de tópicos, Adorno guia a elaboração do texto a partir de possíveis críticas que a obra receberia, esquivando as ideias do livro de mal-entendidos e diferenciando-as de possíveis leituras errôneas[6].

A acusação geral é a de que o livroteria submetido problemas efetivamente críticos ao arcabouço metodológico de pesquisas empíricas que reduziriam a riqueza e multiplicidade da expressão humana a meros dados classificáveis e manipuláveis. O que alinharia a obra a desenvolvimentos positivistas[7]. Tal seria o motivo principal para muitos dos comentadores defenderem que The Authoritarian Personality foi produzida somente “por ocasião” da estadia de Horkheimer e Adorno nos Estados Unidos, sendo uma obra fortemente influenciada por outras correntes teóricas mais do que pela própria produção da Teoria Crítica. Isso porque Adorno teria supostamente aberto mão de desenvolvimentos propriamente críticos em favor de um ponto de vista mais aceito pelo ambiente científico norte-americano em geral. Contudo, no capítulo dos “Remarks”, fica claro o alinhamento do livro aos estudos e posicionamentos da Teoria Crítica adorniana.

Além disso, o livro foi acusado de sofrer de um déficit sociológico, uma vez que suas explicações padeceriam de psicologismo. Mais especificamente, ao tratar o preconceito a partir do nível da personalidade, e não a partir da macroestrutura social, leitores mais apressados teriam entendido haver no livro uma inversão metodológica da determinação da sociedade sobre os indivíduos. Soma-se a isso a ausência de uma crítica ampla da sociedade capitalista na obra, aparentando haver um afastamento desta em relação às produções da primeira geração da Teoria Crítica. O que teria levado à consideração de que a obra seria um desvio do pensamento adorniano. É justamente contra tal acusação que boa parte do capítulo publicado pela Platypus Review se posiciona ao mobilizar noções já desenvolvidas por Adorno em outros textos de sua autoria – como a tese do fim do indivíduo, a mediação entre indivíduo e sociedade feita pela mercadoria, além da teoria horkheimiana da falência da figura paterna, entre outros.

Como é evidenciado nos “Remarks”, a formulação de ideologias preconceituosas é produzida por forças sociais objetivas vinculadas ao desenvolvimento do capitalismo, não sendo, portanto, originárias da psique individual. Ao mesmo tempo, contudo, o preconceito não é diretamente derivado de fatores econômicos. A relação entre a determinação social e a inconsciência individual ocorre muito mais como uma formação de compromisso. Explicitada pela vinculação entre personalidade e ideologia, a organização de um “padrão ideológico pessoal” de cada personalidade autoritária é produzida pelas gratificações na economia emocional e pulsional subjetivas envolvidas na identificação com ideologias autoritárias circulantes na cultura. Isso significa que cada sujeito mais preconceituoso seria um agente mediador – como receptor e propagador – de ideologias autoritárias.

Sendo o preconceito, portanto, uma produção da sociedade capitalista, no capítulo adorniano é explicitado claramente como o antissemitismo analisado na época do capitalismo administrado se diferencia do antissemitismo histórico e religioso vivenciado previamente. Se anteriormente ele era desenvolvido individualmente ou por vinculação a algumas instituições específicas, agora o preconceito passa a ser uma forma da totalidade capitalista de administrar o descontentamento dos indivíduos submetidos a um sistema socioeconômico excludente, injusto e explorador. A questão sobre a suscetibilidade ao preconceito socialmente difundido, entretanto, não faz dos indivíduos mais preconceituosos meras vítimas do capitalismo: tendo atingido um certo grau de esclarecimento, estes não seriam completamente manipulados. O que faz do autoritarismo não exatamente uma ignorância, mas uma escolha mais ou menos racional de recusa a se confrontar com valores e opiniões que se tornaram convencionalmente aceitos e hegemônicos.

Vê-se, então, como Adorno enfatiza as contradições expressas pelos entrevistados: eles seriam socialmente determinados a reproduzirem ideologias preconceituosas e, ao mesmo tempo, racionalmente esclarecidos quanto às próprias experiências muitas vezes opostas a tais ideologias. Assim, a pesquisa se concentrou em estudos de opiniões provenientes de níveis diferentes de consciência na personalidade para conseguirem acessar e explicar tais contradições.

Tais contradições psíquicas seriam um reflexo das próprias situações contraditórias da realidade social capitalista. E da mesma forma como as ideologias tendem a naturalizar as contradições da sociedade capitalista, evitando refletir sobre elas e modificá-las, o mesmo tende a ocorrer com a personalidade autoritária. O padrão ideológico pessoal de cada entrevistado permanece contraditório, sem produzir sínteses e reflexões, satisfazendo pulsionalmente as necessidades psíquicas individuais. Visto isso, o trabalho propriamente crítico a ser produzido por uma noção de antropologia autoritária não seria o apaziguamento ou resolução de contradições psíquicas (como querem os revisionistas freudianos, aos quais Adorno se opõe), mas sim a exposição destas irracionalidades enquanto reações a contradições presentes na sociedade que forma estes mesmos indivíduos. A antropologia, então, seria um modo de expor o tipo autoritário mais como um retrato do modo de socialização de indivíduos em um dado contexto, como formas reiteradas e sedimentadas de respostas psíquicas diante de situações historicamente reificadas.

Se o preconceito não é um fenômeno gerado pela personalidade, mas tem a sua origem na sociedade, então podemos vislumbrar desde já o motivo da psicanálise freudiana ser empregada na obra para fornecer explicações antropológicas e não precisamente psicológicas. Sem perder de vista o empírico, corporal e singular, a psicologia se converte em uma antropologia quando a sua explicação diz mais de uma forma de socialização hegemônica de um dado grupo do que de configurações psicológicas individuais específicas. Forma de compreender como, para se pesquisar mais sobre as forças sociais objetivas, deve-se procurar ainda mais a fundo estruturas subjetivas típicas, reiteradas, hegemônicas. Nesse sentido, este capítulo de Adorno produz um ganho ímpar na clarificação do posicionamento da psicanálise não só em The Authoritarian Personality, mas na Teoria Crítica desenvolvida por Adorno em geral.

Além disso, Cutrone nos lembra também que a contradição enfrentada pelos mais preconceituosos seria proveniente de “aspectos concorrentes da psique individual entre individualidade liberal e tendências autoritárias”. Tal dualidade do tipo antropológico autoritário é explicada por uma contribuição de Horkheimer em textos que datam da década de 1930 e que vão reverberar, nos anos 1940, na dualidade do sujeito esclarecido que, apesar de seu desenvolvimento racional, reverte-se no mito, como lemos em Dialética do Esclarecimento.

Desde 1930, Horkheimer nos fala do distanciamento entre a realidade econômica e a moralidade defendida no contexto burguês. Considerando as exigências de ações humanas para a sobrevivência no capitalismo, vê-se que o egoísmo e a crueldade são mobilizados na designação de um comportamento econômico voltado à obediência à autoridade e ao desejo de aniquilar o outro.      Ao mesmo tempo, entretanto, a moralidade burguesa prega a recusa do egoísmo enquanto princípio de justiça social voltado à fraternidade e liberdade de todos os seres humanos iguais. Vê-se facilmente que “a disposição peculiar de grupos socialmente importantes da burguesia estava em contradição com sua própria moralidade.”[8] Percebemos, portanto, a dualidade de um tipo antropológico cuja “visão moralista de ser humano contém um princípio racional, embora sob forma mistificada, idealista.”[9] Ou ainda, a concepção de que os princípios morais e racionais voltados aos fins de uma totalidade social aparecem como meramente formais, sem vínculo com a realidade material. É assim que já vemos no Horkheimer da década de 1930 os traços do que The Authoritarian Personality irá definir como o cinismo do tipo antropológico autoritário que pratica uma atitude cindida entre a repetição vazia de valores morais simplesmente formais, de um lado, e as ações e discursos de conteúdo agressivo e egoísta, fomentados pela estrutura capitalista, de outro.

Por fim, somente indicar a contradição psicológica do tipo antropológico autoritário não é suficiente para explicitar no que consistiria o caminho para a emancipação humana presente em The Authoritarian Personality. Temos ainda de desenvolver a ideia, apenas sugerida por Cutrone, segundo a qual “somente quando as vítimas assumirem completamente as características da civilização dominante, elas serão capazes de retirá-las do poder dominante.” Para tanto, abordemos a noção de pseudoindivíduo.

Segundo Adorno, os sujeitos da sociedade esclarecida não se comportam mais como indivíduos, mas pseudoindivíduos, o que denota a estereotipização do pensamento e comportamento humano. Nesse sentido, a individualidade foi “reduzida por modelos estandardizados de comportamento a uma ideia completamente abstrata, que já não tem mais nenhum conteúdo definido.”[10] O que se estuda no livro seria, então, a parcela estereotipada dos indivíduos, ou mais precisamente, os mecanismos de cooptação das propagandas autoritárias e o que eles suscitam nos indivíduos. Aos pseudoindivíduos sob a indústria monopolista está reservado somente uma pseudoatividade, ou seja, a possibilidade de apenas reagir às imposições capitalistas ao invés de modificá-las.

Entretanto, sob tal ponto de vista, eles não se mostram como totalmente passivos frente às determinações sociais, mas, por assim dizer, pseudopassivos. Esta adequação incompleta ao social deve ser continuamente reforçada para que a resistência humana, enquanto uma real atividade do indivíduo, não irrompa. Por isso, a indústria cultural a serviço do capitalismo monopolista, bem como os líderes que nela despontam, como que mobilizam e administram traços e resíduos pulsionais (ou elementos da proto-história biológica do indivíduo) que apesar de terem sido apaziguados e dominados pela determinação capitalista, mas que continuam sobrevivendo.

Com isso, a adequação individual às imposições sociais não poderia ser total. Isso quer dizer que certos resquícios da natureza interna, que teriam sido reprimidos pelas determinações históricas, podem ressurgir, mesmo que de forma ressignificada, à revelia das imposições culturais reinantes. Estes seriam os resquícios arcaicos (ou momentos da proto-história biológica) correspondentes a traços de uma vivência atualmente não prevalecentes, mas que ainda assim perduram, retornando como não-idênticos.

Nesse âmbito, podemos dizer que, apesar da inegável determinação social sobre o âmbito subjetivo, Adorno chega a nomear os indivíduos como sujeitos da perpetuação contínua do vigente justamente pela escolha parcialmente consciente da recusa de resistência e pela manutenção da adaptação a uma situação dominadora e violenta: “Sob condições sociais atuais, as pessoas não apenas temem a manipulação, mas também, por outro lado, anseiam por ela e pela orientação daqueles que percebem que são fortes e capazes de protegê-las.”[11] Emana também dos indivíduos a necessidade de re-encenação contínua de uma má infinitude por parte da sociedade capitalista, como forma de administração de um mal-estar recorrente pelo reconhecimento da insatisfação sentida, mas nunca assumida e nem atuada completamente pelas pessoas.

De forma atualíssima, Adorno nos lembra que, em boa parte das formações de massa analisadas por ele, a ideologia foi substituída por uma mentira ostensiva. Falsidade esta que é conhecida como mentira pelos pseudoindivíduos massificados, o que não os impede de continuar afirmando-a:

Na atual situação, talvez seja, por essas razões - que são apenas exemplos de fenômenos muitos mais amplos da psicologia das massas –, apropriado perguntar até que ponto ainda se justifica toda a distinção psicanalítica entre o consciente e o inconsciente. As atuais reações das massas são bem pouco veladas da consciência. O paradoxo da situação é que é quase insuperavelmente difícil romper esse fino véu. Mesmo assim, a verdade não é mais subjetivamente tão inconsciente quanto se esperava que fosse. Isso se mostra pelo fato de que, na práxis política dos regimes autoritários, a mentira ostensiva, na qual ninguém efetivamente acredita, está cada vez mais substituindo as “ideologias” de ontem, que tinham o poder de convencer aqueles que acreditavam nelas. Por isso, não podemos nos contentar simplesmente com afirmar que a espontaneidade foi substituída pela cega aceitação do material imposto. (...) A espontaneidade é consumida pelo tremendo esforço que cada indivíduo tem de fazer para aceitar o que lhe é imposto – um esforço que se desenvolveu exatamente porque o véu que recobre os mecanismos de controle se tornou tão tênue.[12]

   Contudo, é justamente quando o extremo da alienação é atingido que o movimento dialético de retorno ao contrário acontece. Como lemos em Dialética do Esclarecimento:

É só quando a total identificação com essas potências monstruosas é impressa nas pessoas concernidas como uma segunda natureza e quando todos os poros da consciência são tapados, que as massas são levadas a esse estado de absoluta apatia que as torna capazes de realizações fantásticas.[13]

Assim, se até hoje os retornos pulsionais do arcaico foram mobilizados para fins de manipulação de um tipo antropológico autoritário, justamente porque tal antropologia é histórica, ela pode vir a ser outra em outros contextos e determinações talvez até mais radicais.

É quando a aparência é completamente revelada, desnaturalizando o pretenso dado, e quando a natureza humana tipificada é exibida de forma historicamente construída que a conceituação mesma de uma antropologia vigente (enquanto segundo natureza) tende a se desfazer. É desse modo que vislumbramos em Adorno uma brecha que pode significar uma esperança na emancipação ao dizer: “nos homens reificados a reificação tem seu limite.”[14] A consciência dissociada e contraditória do ser humano reificado denotaria, então, a expressão de uma contradição social, de modo que haveria ainda no horizonte da totalidade a possibilidade de um movimento inicial da dialética histórica.

Por isso, ao abordarmos as contradições do preconceito sob o viés antropológico, não queremos defender que seria a partir do sujeito que a emancipação poderia se iniciar; afinal, os determinantes sociais é que formam os sujeitos. Mas dizemos, por outro lado, que ao menos não há nada no sujeito que a impeça de acontecer. Haveria, então, condições pulsionais, ou seja, psíquicas e corporais, para que ocorra a emancipação do ser humano mediante novas possibilidades de experiência com a alteridade – por mais que o movimento para a liberdade humana deva se iniciar a partir dos momentos contraditórios do social. Mesmo que toda a possibilidade de reconciliação deva ser erigida histórica e socialmente, é no corpo humano que ela é particularizada. Assim, desviar nossos olhos de uma antropologia histórico-crítica em Adorno seria invisibilizar também o modo como as contradições e potencialidades emancipatórias objetivas são vivenciadas pulsionalmente.

Nesse sentido, a psicanálise, tomada como base de desenvolvimento da concepção antropológica de The Authoritarian Personality, ganharia a possibilidade de expandir suas funções no interior da Teoria Crítica – ao menos aquela de inspiração adorniana – ao ser utilizada para mais do que a produção de um diagnóstico crítico, tornando-se também uma ferramenta para se pensar a emancipação.

A psicanálise possibilita precisamente o surgimento de uma outra concepção de emancipação, mais complexa do que a que poderia ser encontrada na teoria social. (...) Os teóricos críticos de Frankfurt, notadamente Adorno e Horkheimer, levam em consideração esse núcleo antropológico negativo trazido pela psicanálise que lhes permite pensar a emancipação de outro modo, a partir do caráter constitutivo do apego [attachement] à dominação.[15]


[1] https://platypus1917.org/2016/11/08/remarks-authoritarian-personality-adorno-frenkel-brunswik-levinson-sanford/

[2] A versão traduzida para o português pode ser acessada em: https://revistas.marilia.unesp.br/index.php/transformacao/article/view/9878

[3] Disponível em http://www.ajcarchives.org/main.php?GroupingId=6490 Último acesso em 05 de fevereiro de 2020. A AJC financiou os Studies in Prejudice, um conjunto de cinco pesquisas organizadas por Horkheimer e Samuel Flowerman, do qual The Authoritarian Personality faz parte.

[4] https://platypus1917.org/2016/11/08/critical-authoritarianism/

[5] Todas as citações aqui referidas no debate com Cutrone são de tradução livre realizada pela autora.

[6] Foram principalmente nos primeiros anos após a publicação da obra que ela ganhou maior atenção dos críticos – ao menos nos Estados Unidos da América, local de sua publicação original. A produção dos comentadores fez do livro um clássico em psicologia social e pesquisa empírica que continua ainda hoje a suscitar interesses. Contudo, não é por seus pontos positivos que a obra é, em geral, lembrada. A concentração de más críticas a TAP levou à demora na produção de uma nova edição do livro nos EUA, que foi feita somente em 1993.

[7] Como nos diz Jarvis, apenas um dos vários exemplos de comentadores que relacionam The Authoritarian Personality a técnicas positivistas de pesquisa empírica: “como todos os trabalhos que Adorno empreendeu em colaboração com sociólogos norte-americanos, o livro traz as marcas de um compromisso não apenas com o positivismo, mas também com as condições políticas norte-americanas.” (Jarvis, S. Adorno – a critical introduction. NYC: Routledge: 1998, p. 85)

[8] Horkheimer, Max. “Egoism and freedom movements: on the Anthropology of the Bourgeois Era” In Between Philosophy and Social Science: Selected Early Writing Studies in Contemporary German Social Thought. Cambridge: MIT, 1993, p. 60.

[9] Horkheimer, Max. “Egoism and freedom movements: on the Anthropology of the Bourgeois Era” In Between Philosophy and Social Science: Selected Early Writing Studies in Contemporary German Social Thought. Cambridge: MIT, 1993, p. 54.

[10] Adorno, T. W. “Sobre música popular” Cohn, Gabriel (org). Coleção “Grandes Cientistas Sociais” – São Paulo: Ática, 1986, p. 143.

[11] Adorno, T. W. The psychological technique of Martin Luther Thomas’ radio addresses – Stanford University Press: California, 2000, p. 5.

[12] Adorno, T. W. “Sobre música popular” Cohn, Gabriel (org). Coleção “Grandes Cientistas Sociais” – São Paulo: Ática, 1986, p. 146.

[13] Horkheimer, M. e Adorno, T. W. Dialética do Esclarecimento: Fragmentos Filosóficos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., p. 168.

[14] Adorno, T. W. Soziologische Schriften. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1979, p. 391.

[15] Genel, Katia. “Psychanalyse et théorie sociale : la psychanalyse est-elle facteur d’émancipation?” Contretemps – Revue de Critique Communiste, (abril) 2014. Disponível em: https://www.contretemps.eu/psychanalyse-et-theorie-sociale-la-psychanalyse-est-elle-facteur-demancipation/ Último acesso em: 06 de dezembro de 2017, p. 5.